Brazilian Journal of Otorhinolaryngology Brazilian Journal of Otorhinolaryngology
Braz J Otorhinolaryngol 2018;84:132 DOI: 10.1016/j.bjorlp.2017.09.001
Carta ao editor
Science as momentary truth
A ciência como verdade momentânea
Leonardo Silva
Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), Departamento de Otorrinolaringologia, São Paulo, SP, Brasil
Cara Editora,

Recente editorial do BJORL toca em um ponto sensível relacionado à educação médica continuada (EMC) nos dias de hoje.1 Como podemos conciliar o tempo cada vez mais escasso com a atualização médica? A produção científica volumosa, facilmente acessível e por vezes contraditória tem tornado a EMC um assunto polêmico em todo o mundo. O que estudar, como estudar e de que forma? Qual a melhor base de dados? Onde se encontra o melhor estudo? Onde encontrar a resposta certa para determinada dúvida? Como separar artigos científicos de alta qualidade de publicações medianas?

Vale lembrar que a partir de uma dúvida apenas o método científico tem o poder de conduzir o pesquisador com segurança na busca da resposta adequada. Compreender esse ponto é fundamental para que se distancie a ciência da crença, nada mais comprometedor para qualquer estudo.

Indiscutivelmente um dos maiores avanços proporcionados à organização e difusão do conhecimento médico foi o advento da medicina baseada em evidência (MBE).2 Centros de MBE em todo o mundo, entre eles o de McMaster, no Canadá, e o de Oxford, na Inglaterra, se dedicam a desenvolver ferramentas que oferecem ao médico de forma sintética e simples produções científicas com qualificação hierarquizada, permitem acesso rápido a informações relevantes e de baixo custo. Entre essas ferramentas estão as revisões sistemáticas com metanálise.

Ao acessar fontes secundárias de qualidade nos debruçamos diretamente sobre o que realmente interessa, pois a separação do joio e do trigo já foi feita. Isso não significa que estudos com nível de evidencia superior devam escapar ao crivo atento e crítico do leitor.

Críticas à MBE existem e são muitas. A ciência e a verdade, contudo, não podem ser consideradas estáticas e imutáveis e obviamente esbarram nos limites epistemológicos próprios da fase em que a evolução do conhecimento humano se encontra. Assim, podemos afirmar como exemplo que até mesmo metanálises produzidas no século XVI que atestavam o geocentrismo estavam corretas. Evidentemente que não se deve confundir a ferramenta com a obra acabada. A “verdade científica” daquele momento era desvendada pelo substrato que os dados sustentavam à época, como uma foto. Negar isso seria negar a própria evolução do conhecimento humano.

Ao compreender, valorizar e difundir a MBE, contribuíram para a eficiência dos serviços de saúde, que, em última análise, dependem diretamente da produção, transmissão e aplicação do conhecimento de qualidade.

Conflitos de interesse

O autor declara não haver conflitos de interesse.

Referências
1
F.A. Ribeiro
The meta‐analysis
Braz J Otorhinolaryngol, 83 (2017), pp. 497 http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2017.06.001
2
P.E. Richardson
David Sackett and the birth of Evidence Based Medicine. How to practice and teach EBM
BMJ, 350 (2015), pp. h3089

Como citar este artigo: Silva L. Science as momentary truth. Braz J Otorhinolaryngol. 2018;84:132.

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Braz J Otorhinolaryngol 2018;84:132 DOI: 10.1016/j.bjorlp.2017.09.001