Brazilian Journal of Otorhinolaryngology Brazilian Journal of Otorhinolaryngology
Braz J Otorhinolaryngol 2017;83:683-90 DOI: 10.1016/j.bjorlp.2017.05.028
Artigo original
Arteriovenous malformation of the external ear: a clinical assessment with a scoping review of the literature
Malformação arteriovenosa da orelha externa: avaliação clínica com revisão abrangente da literatura
Shin Hye Kima,b, Seung Hoon Hanb, Yoonjae Songb, Chang Sik Parkc, Jae‐Jin Songb,,
a Korea University Medical Center, Korea University College of Medicine, Department of Otorhinolaryngology‐Head and Neck Surgery, Seul, Coreia
b Seoul National University Bundang Hospital, Seoul National University College of Medicine, Department of Otorhinolaryngology‐Head and Neck Surgery, Seongnam, Coreia
c Seoul National University Bundang Hospital, Seoul National University College of Medicine, Department of Plastic Surgery, Seongnam, Coreia
Recebido 20 Maio 2016, Aceitaram 20 Setembro 2016
Resumo
Introdução

Malformação Arteriovenosa Auricular da orelha externa é uma doença raramente observada, em particular, na região da aurícula, com hemorragia espontânea, tem sido infrequentemente relatada.

Objetivo

No presente estudo, relatamos um caso incomum de malformação arteriovenosa auricular de início tardio originária da artéria auricular posterior confirmada por angiotomografia computadorizada. O caso foi controlado com sucesso por embolização endovascular pré‐cirúrgica seguida por excisão completa da lesão. Além disso, nós também apresentamos uma revisão abrangente da literatura.

Método

Um homem de 60 anos de idade com malformação arteriovenosa auricular direita tratado em nosso centro de atendimento terciário e 52 pacientes com malformação arteriovenosa auricular descritos em 10 relatos de casos e um estudo de revisão são apresentados. A malformação arteriovenosa auricular pode manifestar‐se como inchaço da orelha, zumbido pulsátil, dor e/ou sangramento. Ao exame físico, um edema pulsátil e/ou uma massa sensível é evidente. Quando há suspeita de malformação arteriovenosa, as lesões devem ser visualizadas usando modalidades de imagem que detectam de maneira ideal as lesões vasculares, e tratadas por meio de embolização, excisão total da lesão, ou ressecção auricular. A eficácia dos vários métodos de diagnóstico utilizados e os desfechos do tratamento foram analisados.

Resultados

Várias modalidades de imagem, incluindo ultrassonografia Doppler, angiotomografia computadorizada, angiografia por ressonância magnética e/ou angiografia cerebral transfemoral foram usadas para diagnosticar 38 casos relatados na literatura. Em outros 15 casos, nenhuma imagem foi realizada; o tratamento foi determinado unicamente pelo exame físico e ausculta. Do total de 53 casos, 12 não foram tratados (os seus sintomas foram apenas observados), enquanto que 20 foram submetidos a embolização terapêutica. No total, 32 doentes, incluindo um paciente que não foi tratado e 10 com malformação arteriovenosa persistente ou agravada após a embolização anterior, foram submetidos a excisão completa da lesão ou ressecção auricular, dependendo da extensão da lesão. Nenhuma complicação pós‐operatória importante foi registrada. O tempo de seguimento pós‐operatório variou de 1 mês a 19 anos, e apenas um caso de malformação arteriovenosa cervicofacial irressecável, residual foi registrado.

Conclusão

A malformação arteriovenosa auricular é uma doença raramente encontrada, mas deve ser suspeitada se um paciente apresentar orelha inchada e zumbido pulsátil. A imagem apropriada é essencial para o diagnóstico e avaliação da extensão da doença. Como a embolização proporciona apenas um controle relativamente precário, a remoção cirúrgica total da lesão vascular é recomendada.

Abstract
Introduction

Auricular Arteriovenous Malformation of the external ear is a rarely encountered disease; in particular, arteriovenous malformation arising from the auricle, with spontaneous bleeding, has seldom been reported.

Objective

In the current study, we report an unusual case of late‐onset auricular arteriovenous malformation originating from the posterior auricular artery that was confirmed by computed tomographic angiography. The case was successfully managed by pre‐surgical intravascular embolization followed by total lesion excision. Prompted by this case, we also present a scoping review of the literature.

Methods

A case of a 60 year‐old man with right auricular arteriovenous malformation treated in our tertiary care center, and 52 patients with auricular arteriovenous malformation described in 10 case reports and a retrospective review are presented. Auricular arteriovenous malformation can manifest as swelling of the ear, pulsatile tinnitus, pain, and/or bleeding. On physical examination, a pulsatile swelling and/or a tender mass is evident. When arteriovenous malformation is suspected, the lesions should be visualized using imaging modalities that optimally detect vascular lesions, and managed via embolization, mass excision, or auricular resection. Effectiveness of the various diagnostic methods used and the treatment outcomes were analyzed.

Results

Various imaging modalities including Doppler sonography, computed tomographic angiography, magnetic resonance angiography, and/or transfemoral cerebral angiography were used to diagnose 38 cases reported in the literature. In another 15 cases, no imaging was performed; treatment was determined solely by physical examination and auscultation. Of the total of 53 cases, 12 were not treated (their symptoms were merely observed) whereas 20 underwent therapeutic embolization. In total, 32 patients, including 1 patient who was not treated and 10 with persistent or aggravated arteriovenous malformation after previous embolization, underwent mass excision or auricular resection depending on the extent of the lesion. No major postoperative complication was recorded. The postoperative follow‐up duration varied from 1 month to 19 years, and only one case of unresectable, residual cervicofacial arteriovenous malformation was recorded.

Conclusion

Auricular arteriovenous malformation is a rarely encountered disease, but should be suspected if a patient presents with a swollen ear and pulsatile tinnitus. Appropriate imaging is essential for diagnosis and evaluation of the extent of disease. As embolization affords only relatively poor control, total surgical removal of the vascular mass is recommended.

Keywords
Ear, Tinnitus, Arteriovenous malformations, Embolization, therapeutic, Surgical procedures, operative
Palavras‐chave
Orelha, Zumbido, Malformações arteriovenosas, Embolização, terapêutica, Procedimentos cirúrgicos, operatórios
Introdução

Uma malformação arteriovenosa (MAV) é uma conexão anormal entre uma ou mais artérias e veias, ignora o sistema capilar.1 Na maioria dos casos, a MAV surge a partir da zona intracraniana, mas ocasionalmente tem origem nos vasos extracranianos.2 Em uma revisão retrospectiva de 81 pacientes com MAV da cabeça e pescoço, o local mais comum foi a bochecha (31%), seguida por uma das orelhas (16%).3 A MAV quase sempre está presente ao nascimento, mas se manifesta mais tardiamente na vida.

Aqui, relatamos um caso incomum de MAV auricular originária da artéria auricular posterior de início tardio. Além disso, uma revisão abrangente da literatura nos possibilita discutir os papéis desempenhados por imagem no diagnóstico e tratamento de MAV.

Material e métodoCritérios de pesquisa

Ao fazer pesquisas no PubMed (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/), aderiu‐se à diretriz do Prisma (Itens de relatório preferidos para revisões sistemáticas e metanálises), para identificar todos os estudos sobre MAV da orelha externa.4 As palavras‐chave usadas foram “malformação arteriovenosa” e “orelha” e a busca foi limitada a artigos no idioma inglês. MAV provenientes do meato auditivo externo ou das áreas pré ou retroauriculares foram excluídas.

Nosso caso e revisão da literatura

Tratamos um homem de 60 anos com MAV auricular do lado direito. O estudo foi aprovado pelo conselho de revisão institucional do Instituto de Pesquisa Clínica em nosso centro (B‐1601‐329‐002). A revisão da literatura identificou 52 pacientes com MAV descritos em 11 relatos (dez relatos de casos e uma revisão retrospectiva). Os dez relatos de casos trataram de 11 casos de AVM auricular e a única revisão analisada, 41 casos. As principais queixas, duração dos sintomas, eventos que agravaram as MAV e história de sangramento AVM, espontâneo foram analisadas.

Processo de diagnóstico e diagnóstico diferencial

A lateralidade, localização e extensão da MAV foram investigadas. Várias modalidades de diagnóstico por imagem, inclusive ultrassonografia com Doppler (SD), angiotomografia do osso temporal (ATCOT), angiografia por ressonância magnética (ARM) e/ou angiografia cerebral transfemoral (ATCTF), foram empregadas em casos individuais e os achados das modalidades de diagnóstico‐chave foram revisados. Em pacientes que se submeteram a angiografia diagnóstica, resumiram‐se às principais artérias e aos vasos nutrizes.

Opções e desfechos do tratamento

As opções de tratamento de MAV incluíram observação, embolização, excisão de lesão ou ressecção auricular. Após o tratamento, a condição clínica foi descrita como controlada, melhorada, persistente ou agravada. Também exploramos a aplicação de procedimentos de reconstrução, como enxerto de pele de espessura parcial (EPEP) e reconstrução auricular total. As complicações pós‐operatórias, durações de acompanhamento e estado final foram revisados.

ResultadosNossa experiência com início tardio de MAV

Homem de 60 anos chegou ao departamento de emergência com sangramento espontâneo maciço da orelha direita. Tinha uma história de edema recorrente da aurícula direita e zumbido pulsátil. Três anos antes, o paciente já havia sido atendido na nossa clínica com edema auricular recorrente e fora diagnosticado com um oto‐hematoma, devido ao aspecto da aurícula, semelhante à couve‐flor.

Ao exame físico, a aurícula direita exibiu edema excessivo e mudança de cor (fig. 1A). A membrana timpânica e o meato acústico externo encontravam‐se normais. ATCOT revelou alargamento da hélice direita e uma lesão vascular emaranhada (fig. 1B). Suspeitou‐se de MAV auricular, e uma embolização transarterial com ACTF foi feita. A artéria principal de alimentação da MAV originava‐se da artéria auricular posterior, que foi completamente embolizada com cola (fig. 2A). Após a embolização, o sangramento foi controlado, mas houve necrose isquêmica da pele auricular (fig. 2B e 2C). Duas semanas depois, a fronteira da pele necrosada tornou‐se delimitada (fig. 3A), e, então, foi planejada a excisão total da lesão.

Figura 1.
(0.13MB).

Achados macroscópicos e de angiotomografia de osso temporal na orelha de um homem de 60 anos, como registrado na sala de emergência: (A) O paciente apresentou edema na orelha e sangramento maciço espontâneo; (B) Angiotomografia de osso temporal revelou uma lesão emaranhada vascular auricular do lado direito (seta branca).

Figura 2.
(0.14MB).

Embolização terapêutica pré‐operatória com angiografia cerebral transfemoral e achados macroscópicos na orelha três dias após a embolização: (A) Angiografia cerebral transfemoral revelou vasos tortuosos grandes e inúmeros vasos pequenos. O principal vaso de alimentação da malformação arteriovenosa originou‐se da artéria auricular posterior (seta preta) e foi completamente ocluído com cola; (B) e (C) Após embolização, o sangramento parou, mas a necrose isquêmica da pele evoluiu.

Figura 3.
(0.19MB).

Achados macroscópicos da orelha em duas semanas após embolização e excisão total da malformação arteriovenosa. (A) Duas semanas após a embolização transarterial, a fronteira da lesão necrosada da pele tornou‐se distinta; (B) A pele necrosada e a lesão da malformação arteriovenosa foi excisada sob anestesia local. As dimensões da lesão eram de 4,8 × 1,2 × 1,2cm3; (C) A aurícula foi fechada sob tensão mínima.

Sob anestesia local, fez‐se uma incisão ao longo do plano vertical da aurícula direita e a lesão de MAV foi totalmente ressecada (fig. 3B). A pele necrosada adjacente foi removida e fez‐se fechamento primário (fig. 3C). O paciente recuperou‐se sem quaisquer complicações. Aos seis meses de pós‐operatório, a aurícula estava bem cicatrizada, sem qualquer evidência de recorrência.

Demografia e sintomas de pacientes com MAV

A tabela 1 resume os achados de 12 estudos em 53 casos de MAV auricular.1,5,6 Dos 11 relatos de casos, sete eram homens e quatro mulheres, com média de 21 (15‐45) anos. Na revisão retrospectiva de 41 casos, a predominância entre os sexos não foi mencionada e a idade média foi de 26 (1‐55) anos. As queixas principais foram edema da orelha, zumbido pulsátil, dor intermitente, perda auditiva e/ou sangramento espontâneo profuso. Cerca de dois terços dos pacientes relataram que seus sintomas começaram em uma idade muito jovem. Sete pacientes relataram que suas MAV se tornaram agravadas durante a puberdade e seis tinham histórias de trauma.

Tabela 1.

Resumo de casos que mostra malformação arteriovenosa da orelha externa a partir de literaturas anteriores relatadas e o presente estudo

  Ramadass T (2000)9  Pham TH (2001)12  Wu JK (2005)5  Meher R (2008)11  Saxena SK (2008)10 
N° de pacientes  41 
Idade  25An  41An  26An (1A–55A)  16An, 22An  21An 
Sexo  Não descrito  M, F 
Nacionalidade  Bangladesh  EUA  EUA e França  Índia  Índia 
Queixa principal  Edema de orelha, sangramento profuso  Edema de orelha, ZP intermitente, sangramento  ZP (51,2%), Sangramento (41,5%), Dor (29,3%), Ruído/tremor (24,4%)  Pct.1: dor intermitente/Pct.2: Edema de orelha, ZP  Edema de orelha, ZP 
Duração do sintoma  7An  6An    10An, 15An   
História de sangramento  Várias vezes  Várias vezes    Pct.2: 2 vezes  Nenhum 
Local da lesão  Aurícula D  Aurícula E  Aurícula e envolvimento extra‐auricular (Retroauricular: 46,3%,
Pescoço: 22%, Nenhum: 22%) 
Aurícula D  Aurícula D 
Exame diagnóstico importante/achados  A/vasos aumentados e tortuosos  A/rede difusa de desvios  A e/ou RM: 65,9%  Pct.1: SD/áreas anecoicas dilatadas múltiplas, Pct.2: ARM/estruturas serpiginosas aumentadas  A/desvios difusos com ATS 
Principais vasos de alimentação  AAP, AO  AAP, ATS, AO  AAP, ATS, AO  Pct.2: AAP, ATS  ATS 
Tratamento  Excisão e EPEP, elevação da orelha após 4M  Excisão e EPEP após embolização  Observação (n = 12; 29,3%), Embolização (n = 9; 21,9%), ressecção auricular com embolização (n=20, 48.8%)  Pct.1,2: Excisão e EPEP  Falha de embolização, excisão após ligação da artéria de alimentação 
Duração do acompanhamento/estado final  4M/acompanhamento perdido após 2ª operação  2An/sem recorrência  5An (1–19An)/20 pacientes com amputação: controlado (n = 16), melhorado (n = 3), persistente (n = 1)    3An/sem recorrência 
  Woo HJ (2008)13  Whitty LA (2009)8  Prasad KC (2011)14  Goel A (2011)15  Meena BK (2013)1  Dixit SG (2013)6  Kim SH (este estudo) 
N° de pacientes 
Idade  20An  15An  45An  22An  21An  21An  60An 
Sexo 
Nacionalidade  Coreia  EUA  Índia  Índia  Índia  Índia  Coreia 
Queixa principal  ZP  Edema de orelha, dor intermitente  Edema de orelha  Edema de orelha, ZP  Edema de orelha, ZP  Edema de orelha  Edema de orelha, sangramento maciço, ZP 
Duração do sintoma  7M  2An  2‐3An  4An  1An  Desde o nascimento  3A 
História de sangramento    Nenhuma    2 vezes  2 vezes  Nenhuma   
Local da lesão  Aurícula E  Aurícula E    Aurícula D  Aurícula E    Aurícula D 
Exame diagnóstico importante/achados  RM/sinal anormal expressando intensidade da lesão  Ausculta/ruído audível  A/MAV lesão e AAP aneurisma  SD  SD,ATC/estruturas serpiginosas aumentadas  ARM/vaso tortuoso anormal  ATC/lesão emaranhada vascular interna 
Principais vasos de alimentação  AAP, ATS    AAP    AAP, ATS  AAP  AAP 
Tratamento  Falha na embolização, excisão  Excisão  Ligação de vaso e excisão de lesão  Excisão e EPEP  Excisão  Embolização sob abordagem externa  Excisão após embolização 
Duração do acompanhamento/estado final  2A/sem recorrência  1M/sem recorrência  2A/sem recorrência        3M/sem recorrência 

A, angiografia; AAP, artéria auricular posterior; An, ano; AO, artéria occipital; ARM, angiografia por ressonância magnética; ATC, angiotomografia; ATS, artéria temporal superficial; D, direita; E, esquerda; EPEP, enxerto de pele de espessura parcial; M, mês; SD, ultrassonografia Doppler; VAV, malformação arteriovenosa; ZP, zumbido pulsátil.

Diagnóstico

A tabela 1 mostra estudo de diagnóstico importante e seus achados. Em 38 dos 53 casos, SD, ATCOT, ARM e/ou ACTF nada revelaram nada em termos de diagnóstico. Nenhuma imagem foi feita nos outros 15 casos; o tratamento foi determinado unicamente pelo exame físico e ausculta.5,7 Na angiografia, os vasos de alimentação mais comuns foram o auricular posterior, temporal superficial e artérias occipitais.

Desfechos de manejo e tratamento

O fluxograma da figura 4 mostra as opções e os desfechos de tratamento. Doze dos 53 pacientes foram inicialmente acompanhados sem qualquer tratamento. Desses, as MAV persistiram em dez e se agravaram em dois. Desses dois últimos, um foi submetido à ressecção auricular e o outro rejeitou uma cirurgia. Vinte pacientes foram submetidos à embolização terapêutica. Desses, as MAV melhoraram em três, mas agravaram em 17. Desses 17, dez foram submetidos à excisão de lesão de MAV ou ressecção auricular.

Figura 4.
(0.14MB).

Fluxograma do tratamento de 53 pacientes com malformações arteriovenosas auriculares.

Foram submetidos 21 pacientes a excisão de lesão de MAV ou ressecção auricular como tratamento inicial. Entre esses pacientes, além de outros 11 que se submeteram a excisão ou ressecção como tratamento de salvamento, 22 (69%) foram controlados e nove (28%) melhoraram; apenas um apresentou MAV irressecável persistente na região adjacente. Nos 32 pacientes o fechamento da ferida foi feito por fechamento linear simples (n = 18); EPEP (n = 10); reconstrução imediata com estrutura cartilaginosa auricular de resgate coberta por retalho temporoparietal (n = 1), retalho local expandido (n = 1), retalho de avanço (n = 1) e retalho livre (n = 1). Um paciente foi submetido a cirurgia em dois estágios: ressecção auricular e EPEP inicialmente e criação lóbulo da orelha e elevação da orelha secundariamente.8 Nenhuma das principais complicações de pós‐operatório foi observada, exceto zumbido transitório em um paciente e necrose da pele no local do fechamento de ferida, em dois.7 O tempo de acompanhamento pós‐operatório variou de um mês a 19 anos e apenas um caso teve MAV cervicofacial residual.7

Discussão

Schobinger classificou MAV em quatro estágios. Os sintomas do estágio I (quiescente) são pele quente e descolorida; os de estágio II (expansão) são ruído, pulsação e edema. O estágio III (destruição) é caracterizado por dor, ulceração e sangramento; enquanto o estágio IV (descompensação) apresenta insuficiência cardíaca.3,9 Os sinais e sintomas de apresentação correlacionam‐se com o estágio de MAV. Embora muitas MAV sejam assintomáticas, elas podem alternativamente desencadear dor intensa e/ou sangramento. Os sintomas mais comuns são pulsação (51,2%), sangramento (41,5%) e dor (29,3%).7 A audição também pode deteriorar, presumivelmente porque o ruído é audível.10–13 Existem dois tipos de MAV no que diz respeito à velocidade de fluxo: rápido e lento.14 A maioria das regiões de fluxo rápido é de fístulas arteriovenosas, enquanto as MAV de fluxo lento são produzidas por lesões venosas, capilares ou linfáticas.14 A classificação baseada na velocidade de fluxo pode ser importante, pois diferentes opções de tratamento são necessárias para os dois tipos.

O aumento de uma MAV pode ser desencadeado por trauma, infecção ou influências hormonais.15 No artigo de revisão de 41 pacientes com MAV, a expansão ocorreu durante a infância em sete, na adolescência em 14, na gravidez em dez e na idade adulta em dez. 7 Algumas MAV podem permanecer quiescentes até a adolescência e até mesmo na idade adulta. Nosso paciente era bem mais velho do que os de outros relatos; além disso, anteriormente, a lesão havia sido diagnosticada, de forma equivocada, como um oto‐hematoma. MAV é semelhante à orelha em couve‐flor, pois ambas as doenças podem apresentar‐se com uma aurícula deformada por edema. Como drenagem simples baseada em diagnóstico errado de oto‐hematoma pode provocar sangramento maciço em caso de MAV, o diagnóstico diferencial da MAV de um oto‐hematoma é importante.

Em dois casos, a intervenção cirúrgica foi planejada sob suspeita de MAV na ausência de dados de imagem.2 No entanto, as modalidades de imagem são necessárias para um diagnóstico preciso da lesão vascular e confirmação da extensão. ARM ou ACTF revelou envolvimento auricular total em 24 (89%) casos, embora se tenha acreditado que 56,1% dos 27 pacientes exibiam apenas envolvimento parcial ao exame físico.7 Embora a ACTF convencional seja invasiva, a técnica é útil para identificar o principal vaso nutriz e o portal de embolização apropriado.15 A embolização guiada por ACTF é uma etapa terapêutica inicial bastante útil, mas a excisão cirúrgica é necessária na maioria dos casos, para evitar a recorrência.

O tratamento é desnecessário (especialmente em crianças) se a MAV for pequena e assintomática. Em um grupo não tratado de 12 pacientes, dois do estágio I e sete de estágio II mantiveram‐se estáveis.3,7 Se a MAV for sintomática, a excisão completa (precedida por embolização) é o tratamento de escolha.6 Ligadura dos vasos arteriais ou excisão parcial deve ser evitada, porque uma nova circulação colateral irá se formar, desencadeará outro aumento.15,16 Em nossa revisão abrangente, 17 de 20 pacientes submetidos a embolização inicial exibiram MAV agravadas ou persistentes. Wu et al. relataram que o tempo médio decorrido entre a última embolização e a ressecção final era de 5,6 anos (variação: 2‐8).5 Com base nesses resultados, conclui‐se que a embolização é mais bem empregada apenas para reduzir a perda de sangue e facilitar a ressecção cirúrgica.

Conclusão

Nosso caso foi inicialmente diagnosticado como um oto‐hematoma devido à aurícula em couve‐flor e o paciente apresentou‐se três anos mais tarde com sangramento maciço. Para diagnosticar com precisão uma MAV, um exame físico minucioso, inclusive palpação, ausculta e imagem, é essencial. Na maioria dos casos de MAV auricular, o tratamento ideal é uma combinação de embolização superseletiva e excisão cirúrgica completa.

Financiamento

Este trabalho foi apoiado por uma bolsa da Korea Health Technology R&D Project, por meio do Korea Health Institute Industry Development (KHIDI), financiado pelo Ministério da Saúde e Bem‐Estar, República da Coreia (número de concessão HI14C2264).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
1
R. Meher,S. Varshney,H.C. Pant
Arteriovenous malformation related to the pinna
Hong Kong Med J, 14 (2008), pp. 157-159
2
M. Raghu,R. De,N. Higgins,P. Axon
Spontaneous arteriovenous malformation of the external auditory meatus
J Laryngol Otol, 118 (2004), pp. 912-913 http://dx.doi.org/10.1258/0022215042703796
3
M.P. Kohout,M. Hansen,J.J. Pribaz,J.B. Mulliken
Arteriovenous malformations of the head and neck: natural history and management
Plast Reconstr Surg, 102 (1998), pp. 643-654
4
D. Moher,A. Liberati,J. Tetzlaff,D.G. Altman,P. Group
Preferred reporting items for systematic reviews and meta‐analyses: the PRISMA statement
Int J Surg, 8 (2010), pp. 336-341 http://dx.doi.org/10.1016/j.ijsu.2010.02.007
5
L.A. Whitty,J.D. Murray,W.E. Null,E.T. Elwood,G.E. Jones
An arteriovenous malformation of the external ear in the pediatric population: a case report and review of the literature
Can J Plast Surg, 17 (2009), pp. e45-e47
6
T.H. Pham,B.J. Wong,G. Allison
A large arteriovenous malformation of the external ear in an adult: report of a case and approach to management
Laryngoscope, 111 (2001), pp. 1390-1394 http://dx.doi.org/10.1097/00005537-200108000-00014
7
J.K. Wu,A. Bisdorff,F. Gelbert,O. Enjolras,P.E. Burrows,J.B. Mulliken
Auricular arteriovenous malformation: evaluation, management, and outcome
Plast Reconstr Surg, 115 (2005), pp. 985-995
8
T. Ramadass,K. Sridhar,G. Krishnan,P.M. Sekhar,N. Narayanan
Arterio venous malformation with auricular hypertrophy
Indian J Otolaryngol Head Neck Surg, 52 (2000), pp. 307-309 http://dx.doi.org/10.1007/BF03006215
9
A. Seccia,M. Salgarello,E. Farallo,P.G. Falappa
Combined radiological and surgical treatment of arteriovenous malformations of the head and neck
Ann Plast Surg, 43 (1999), pp. 359-366
10
J.J. Song,G.S. An,I. Choi,D. De Ridder,S.Y. Kim,H.S. Choi
Objectification and differential diagnosis of vascular pulsatile tinnitus by transcanal sound recording and spectrotemporal analysis: a preliminary study
Otol Neurotol, 37 (2016), pp. 613-620 http://dx.doi.org/10.1097/MAO.0000000000001005
11
S.H. Kim,G.S. An,I. Choi,J.W. Koo,K. Lee,J.J. Song
Pre‐treatment objective diagnosis and post‐treatment outcome evaluation in patients with vascular pulsatile tinnitus using transcanal recording and spectro‐temporal analysis
12
C.S. Kim,S.Y. Kim,H. Choi,J.W. Koo,S.Y. Yoo,G.S. An
Transmastoid reshaping of the sigmoid sinus: preliminary study of a novel surgical method to quiet pulsatile tinnitus of an unrecognized vascular origin
J Neurosurg, 152 (2016), pp. 441-449
13
J.J. Song,Y.J. Kim,S.Y. Kim,Y.S. An,K. Kim,S.Y. Lee
Sinus wall resurfacing for patients with temporal bone venous sinus diverticulum and ipsilateral pulsatile tinnitus
Neurosurgery, 77 (2015), pp. 709-717 http://dx.doi.org/10.1227/NEU.0000000000000902
14
R. Gupta,A. Agrawal
Arteriovenous malformation of external ear and temporal region: a case report
Int J Res Med Sci, 3 (2015), pp. 3427-3429
15
S.K. Saxena,S. Gopalakrishnan,S.B. Megalamani,S. Kannan,J. Shanmugapriya
Arteriovenous malformation of the external ear
Indian J Otolaryngol Head Neck Surg, 60 (2008), pp. 177-178 http://dx.doi.org/10.1007/s12070-008-0045-6
16
X. Morandi,B. Godey,L. Riffaud,G. Brassier
Nontraumatic arteriovenous fistula of the superficial temporal artery
Otolaryngol Head Neck Surg, 124 (2001), pp. 588-589 http://dx.doi.org/10.1067/mhn.2001.115088

Como citar este artigo: Kim SH, Han SH, Song Y, Park CS, Song J‐J. Arteriovenous malformation of the external ear: a clinical assessment with a scoping review of the literature. Braz J Otorhinolaryngol. 2017;83:683–90.

A revisão por pares é da responsabilidade da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico‐Facial.

Autor para correspondência. (Jae‐Jin Song jjsong96@gmail.com)
Copyright © 2016. Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial
Braz J Otorhinolaryngol 2017;83:683-90 DOI: 10.1016/j.bjorlp.2017.05.028