Compartilhar
Publique nesta revista
Informação da revista
Vol. 84. Núm. 3.Maio - Junho 2018Páginas 263-400
Compartilhar
Compartilhar
Baixar PDF
Mais opções do artigo
Visitas
832
Vol. 84. Núm. 3.Maio - Junho 2018Páginas 263-400
Artigo de revisão
DOI: 10.1016/j.bjorlp.2018.02.001
Effect of caffeine on vestibular evoked myogenic potential: a systematic review with meta‐analysis
Efeito da cafeína no potencial evocado miogênico vestibular: uma revisão sistemática com metanálise
Visitas
832
Maria Eduarda Di Cavalcanti Alves de Souzaa,
Autor para correspondência
grupodepesquisalatec@gmail.com

Autor para correspondência.
, Klinger Vagner Teixeira da Costaa, Pedro de Lemos Menezesb
a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Rede Nordeste de Biotecnologia (RENORBIO), Biotecnologia em Saúde, Maceió, AL, Brasil
b Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), Maceió, AL, Brasil
Este item recebeu
832
Visitas
Informação do artigo
Resume
Texto Completo
Bibliografia
Baixar PDF
Estatísticas
Figuras (3)
Mostrar maisMostrar menos
Tabelas (5)
Tabela 1. Características gerais dos estudos incluídos
Tabela 2. Características dos estudos incluídos quanto à intervenção e aos resultados encontrados
Tabela 3. Qualidade dos artigos incluídos, segundo a escala Newcastle‐Otawa de avaliação da qualidade
Mostrar maisMostrar menos
Abstract
Introduction

Caffeine can be considered the most consumed drug by adults worldwide, and can be found in several foods, such as chocolate, coffee, tea, soda and others. Overall, caffeine in moderate doses, results in increased physical and intellectual productivity, increases the capacity of concentration and reduces the time of reaction to sensory stimuli. On the other hand, high doses can cause noticeable signs of mental confusion and error induction in intellectual tasks, anxiety, restlessness, muscle tremors, tachycardia, labyrinthine changes, and tinnitus.

Objective

Considering that the vestibular evoked myogenic potential is a clinical test that evaluates the muscular response of high intensity auditory stimulation, the present systematic review aimed to analyze the effects of caffeine on vestibular evoked myogenic potential.

Methods

This study consisted of the search of the following databases: MEDLINE, CENTRAL, ScienceDirect, Scopus, Web of Science, LILACS, SciELO and ClinicalTrials.gov. Additionally, the gray literature was also searched. The search strategy included terms related to intervention (caffeine or coffee consumption) and the primary outcome (vestibular evoked myogenic potential).

Results

Based on the 253 potentially relevant articles identified through the database search, only two full‐text publications were retrieved for further evaluation, which were maintained for qualitative analysis.

Conclusion

Analyzing the articles found, caffeine has no effect on vestibular evoked myogenic potential in normal individuals.

Keywords:
Vestibular function tests
Coffee
Evoked motor potential
Vestibular nerve
Resumo
Introdução

A cafeína pode ser considerada a droga mais consumida por adultos em nível mundial, podendo ser encontrada em inúmeros alimentos, como no chocolate, café, chá, refrigerante e outros. Em geral, a cafeína em doses moderadas, produz ótimos rendimentos físico e intelectual, aumenta a capacidade de concentração e diminui o tempo de reação aos estímulos sensoriais. Por outro lado, doses elevadas podem causar sinais perceptíveis de confusão mental e indução de erros em tarefas intelectuais, ansiedade, nervosismo, tremores musculares, taquicardia, alterações labirínticas e zumbido.

Objetivo

Considerando que o potencial evocado miogênico vestibular é um teste clínico que avalia a resposta muscular decorrente de estimulação auditiva de alta intensidade, a presente revisão sistemática objetivou analisar o efeito da cafeína sobre o potencial evocado miogênico vestibular.

Método

A formulação deste trabalho consistiu na busca dos estudos nas seguintes bases de dados: MEDLINE, CENTRAL, ScienceDirect, Scopus, Web of Science, LILACS, SciELO e Clinical-Trials.gov. Adicionalmente, a literatura cinzenta também foi pesquisada. A estratégia de busca incluiu termos relacionados à intervenção (consumo de cafeína ou café) e ao desfecho primário (potencial evocado miogênico vestibular).

Resultados

A partir de 253 registros potencialmente relevantes identificados através da busca nas bases de dados, apenas duas publicações em texto completo foram recuperadas para avaliação mais aprofundada, sendo estas mantidas para a análise qualitativa.

Conclusão

Diante dos artigos encontrados a cafeína não tem efeito sobre o potencial evocado miogênico vestibular em sujeitos normais.

Palavras‐chave:
Testes de função vestibular
Café
Potencial evocado motor
Nervo vestibular
Texto Completo
Introdução

A cafeína pode ser considerada a droga mais consumida por adultos em nível mundial, pode ser encontrada em inúmeros alimentos, como no chocolate, café, chá, refrigerante e outros.1 Ela também está presente em grande número de suplementos, diuréticos, produtos destinados à perda de peso e manutenção do estado de alerta.2 Além de todas essas aplicações, a cafeína tem sido empregada com grande frequência, previamente a exercícios físicos, com o intuito de retardar a fadiga e aprimorar o desempenho físico.3–5

Até o início da década 1990 existiam poucos estudos de revisão disponíveis na literatura que apontassem os possíveis efeitos ergogênicos da cafeína (efeito que aumenta a capacidade para o trabalho corporal ou mental, especialmente pela eliminação de sintomas de fadiga, com vistas à melhoria do desempenho).4,6,7 Assim, apenas anos mais tarde é que se passou a dar grande importância ao estudo da cafeína como um possível recurso ergogênico, o que contribuiu para uma maior produção de trabalhos nesse sentido.5,8–11

Após sua ingestão, estima‐se que são necessários de 30 a 45 minutos para alcance do seu pico médio de concentração plasmática,12 com uma meia vida plasmática de aproximadamente três a sete horas.3 Sua ação pode atingir todos os tecidos, pois o seu carreamento é feito pela corrente sanguínea, é posteriormente metabolizada pelo fígado e excretada pela urina na forma de coprodutos.5,8

Acredita‐se que a cafeína tenha mecanismos de ação central e periférica que podem desencadear importantes alterações metabólicas e fisiológicas, as quais melhorariam o desempenho atlético.5,13–16 Nos aspectos neurofisiológicos, a cafeína age como estimulante, aumenta a atividade do sistema nervoso central por meio do bloqueio dos receptores de adenosina nos neurônios do cérebro e da medula espinhal. Simultaneamente, a adenosina ligada a esses receptores produz efeitos calmantes, seu efeito é determinado mediante a dose administrada e a metabolização individualizada.17,18

Em geral, a cafeína em doses moderadas (200‐300 mg) produz ótimos rendimentos físico e intelectual, aumenta a capacidade de concentração e diminui o tempo de reação aos estímulos sensoriais.19,20 Por outro lado, doses elevadas (acima de 600 mg/dia) podem causar sinais perceptíveis de confusão mental e indução de erros em tarefas intelectuais, ansiedade, nervosismo, tremores musculares, taquicardia, alterações labirínticas e zumbido.20–22

Como o potencial evocado miogênico vestibular ? vestibular evoked myogenic potential (Vemp) – é um teste clínico que avalia a resposta muscular decorrente de estimulação auditiva de alta intensidade, que é usado para avaliação da função vestibular por meio da resposta reflexa do músculo e que a cafeína poderia alterar os mecanismos desse potencial de diversas maneiras, a presente revisão sistemática objetivou analisar o efeito da cafeína sobre o Vemp.

Método

A formulação desta revisão sistemática buscou responder a seguinte pergunta: “Qual é o efeito da cafeína sobre o potencial evocado miogênico vestibular?” A partir dessa pergunta, a presente pesquisa está relatada de acordo com o Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta‐Analyses (Prisma) Statement.23 O protocolo foi previamente publicado na base de dados Prospero (http://www.crd.york.ac.uk/PROSPERO), mediante o n° CRD42017068051.

De acordo com os critérios do Prisma, as questões abordadas no objetivo remetem‐se aos três primeiros elementos da estratégia de Pico, os pacientes adultos saudáveis, a intervenção o uso de cafeína, a comparação com adultos normais que não receberam cafeína e o desfecho foram as variações nos potenciais miogênicos evocados vestibulares.

Estratégia de busca

As seguintes bases de dados foram pesquisadas até maio de 2017: Medline, Central, ScienceDirect, Scopus, Web of Science, Lilacs, SciELO e ClinicalTrials.gov. Adicionalmente, as bases de dados referentes à literatura cinzenta também foram pesquisadas: OpenGrey.eu, DissOnline.de, NYAM.org e ClinicalEvidence.com. Não houve busca manual dos artigos incluídos e especialistas na área não foram contatados para evitar o risco de viés.24

A estratégia de busca incluiu termos relacionados à intervenção (consumo de cafeína ou café) e ao desfecho primário (potencial evocado miogênico vestibular). Esses descritores foram usados em inglês para a busca na grande maioria das bases de dados. No entanto, os artigos necessitavam apresentar ao menos o título e/ou resumo em inglês para compor a presente seleção. A estratégia de pesquisa completa é mostrada no Apêndice 1. A pesquisa não foi restrita a qualquer ano de publicação ou idioma.

Critérios de elegibilidade

Foram incluídos ensaios clínicos ou estudos observacionais que preencheram os seguintes critérios: (1) Presença de um grupo com ingesta de cafeína (café, chás, chocolate ou refrigerantes de cola) e outro grupo controle e; (2) E a avaliação do Vemp. Não houve restrições baseadas no sexo, na etnia ou em comorbidades. No mínimo, os estudos precisavam ter avaliado o Vemp como resultado e deveriam relatar os valores médios encontrados ou as diferenças entre os valores médios.

Os critérios de exclusão foram: (1) Estudos nos quais a ingestão de cafeína não se relacionava com o Vemp; (2) Estudos que incluíram sujeitos com patologias vestibulares, patologias degenerativas do sistema nervoso central ou dos músculos esqueléticos e; (3) Publicações duplicadas.

Extração dos dados

Os títulos e os resumos dos artigos recuperados foram avaliados, de forma independente, por dois investigadores que não estavam cegos para os autores ou os títulos de periódicos. Quaisquer divergências foram resolvidas por consenso. Nos casos em que não houve consenso, um terceiro autor foi convocado para tomar a decisão final. As versões completas dos artigos potencialmente elegíveis foram recuperadas para avaliação mais aprofundada.

O resultado primário investigado nos estudos foram as respostas de Vemp sem e após o uso da cafeína pelos pacientes, consideraram‐se a latência para a onda p13/p1, a latência para a onda n23/n1 (ambas em milissegundos) e a amplitude p13‐n23/p1‐n1 (em microvolt). Além disso, foram verificados, como resultado secundário, ano do estudo, local de feitura, faixa etária, quantidade de ingestão da cafeína e tempo de administração.

Todas as informações necessárias foram extraídas dos artigos publicados, protocolos e comentários relacionados a cada estudo e, quando necessário, os autores foram contatados para obter informações adicionais.

Além dos dados do desfecho, foram extraídos os nomes dos autores, o título, ano de publicação, país, as faixas etárias dos grupos, o número de sujeitos em cada grupo, tipo e a quantidade de cafeína usados. Um formulário padrão para armazenamento de dados foi criado com base no modelo adotado pela Cochrane.25

Avaliação do risco de viés

O risco de viés foi avaliado de acordo com as recomendações do manual e da escala da Newcastle‐Ottawa, adaptada para estudos observacionais transversais. A qualidade dos trabalhos foi avaliada por dois pesquisadores de forma independente e as divergências avaliadas por consenso. A pontuação máxima a ser atingida foi de 10 pontos e os itens avaliados da escala foram: (1) Representatividade da amostra; (2) Tamanho da amostra; (3) Manejo das não respostas; (4) Apuração da exposição (fator de risco); (5) Comparabilidade, para investigar se os indivíduos em diferentes grupos de resultados são comparáveis, com base no projeto do estudo ou análise e no controle dos fatores de confusão; (6) Avaliação dos resultados e (7) Teste estatístico (Apêndice 2).

Análise dos dados

Os resultados das latências de P13 e N13 foram analisados. Para isso, foi usado como medida do efeito da diferença média entre os grupos e como método estatístico de análise um modelo de efeitos aleatórios. Um valor de α menor do que 0,05 foi considerado estatisticamente significante.

A heterogeneidade estatística entre os estudos foi testada com o teste de Cochran e a inconsistência foi testada com o teste do I2. Um valor de p inferior a 0,10 foi considerado estatisticamente significante. Quando necessário, características do estudo consideradas potenciais fontes de heterogeneidade foram incluídas em uma análise de subgrupos. Além disso, em caso de heterogeneidade, os estudos foram removidos, um por um, para investigar se o estudo removido foi a fonte de heterogeneidade.

Todas as análises foram feitas com o software RevMan 5.3 (Cochran Collaboration).

ResultadosEstudos incluídos

A partir de 253 registros potencialmente relevantes identificados por meio da busca nas bases de dados, apenas duas publicações em texto completo foram recuperadas para avaliação mais aprofundada e foram mantidas para a análise qualitativa (tabela 1). O diagrama de fluxo que ilustra a pesquisa e a seleção dos estudos está exposto na figura 1.

Tabela 1.

Características gerais dos estudos incluídos

Fonte  Cidade (país)  Amostra (sexo)  Média de idade (anos) ± desvio‐padrão 
McNerney, Coad, Burkard (2014)26  Nova York (Estados Unidos)  30 pacientes
 
23,28 (± 1,95) 
Sousa, Suzuki (2014)27  São Paulo (Brasil)  25 pacientes  29 anos (média de 25‐37 anos) 
Figura 1.
(0,33MB).

Diagrama de fluxo da seleção dos estudos.

A tabela 2 retrata as características da intervenção feita e os resultados encontrados pelos artigos incluídos nesta revisão sistemática.

Tabela 2.

Características dos estudos incluídos quanto à intervenção e aos resultados encontrados

Fonte  Sessões  Quantidade administrada  Tipo de suplementação  Exame feito  c‐Vemp sem administração de cafeína  c‐Vemp com administração de cafeína 
McNerney, Coad, Burkard (2014)26Sessão C (uso de cafeína)  300 mg/ indivíduoUso de café com creme ou açúcar
(Starbucks)
c‐VempP1 (direito): 13,62 ± 1,2
P1 (esquerdo): 14,13 ± 1,2 
P1 (direito): 13,46 ± 1,1
P1 (esquerdo): 13,94 ± 1,2 
Sessão NC (sem uso de cafeína)N1 (direito): 20,44 ± 1,6
N1 (esquerdo): 20,95 ± 1,4 
N1 (direito): 20,68 ± 1,8
N1 (esquerdo): 20,97 ± 1,8 
Amplitude p1n1 (direita):
206,54 ± 123,4 
Amplitude p1n1 (direita):
187,63 ± 115,6 
Amplitude p1n1 (esquerda):
189,72 ± 122,9 
Amplitude p1n1 (esquerda):
194,76 ± 148,6 
Sousa, Suzuki (2014)27
Foram feitos dois exames em cada um dos voluntários, com intervalo médio de 60 minutos.420 mg/ indivíduoCápsulac‐VempP13: 13,41 ± 1,27

 
P13: 13,56 ± 1,39

 
N23: 23,24 ± 2,74  N23: 23,14 ± 2,71 
Amplitude p13n23: 71,90 ± 47,85  Amplitude p13n23: 76,82 ± 48,22 

P1 e N1 direito se referem ao registro do Vemp no lado direito do esternocleidomastoideo e P1 e N1 esquerdo no seu lado esquerdo.

McNerney, Coad, Burkard (2014)26 consideraram a recomendação da abstenção do consumo de alimentos e bebidas que contenham cafeína 24 horas antes de testes vestibulares e buscaram investigar se e como a cafeína influencia no resultado das provas calóricas vestibulares e no potencial evocado miogênico vestibular cervical (c‐Vemp), testes clínicos comuns para análise de função vestibular. Para tanto, contaram com uma amostra de 30 adultos jovens saudáveis, 21 mulheres com média de 23,28 ± 1,95 anos.

Tal estudo foi dividido em duas sessões. A sessão C foi aquela na qual os indivíduos usaram cafeína em forma de café (300 mg de cafeína) antes dos testes de função vestibular, foi permitida a adição de creme ou açúcar a critério do voluntário. Já a sessão NC os indivíduos não consumiram cafeína, que deveria ter sido abolida nas 24 horas de antecedência do teste. As duas sessões foram contrabalanceadas. Adicionalmente foi aplicada uma escala de retirada de cafeína que relacionava uma série de sintomas decorrentes desse fato (dor de cabeça, cansaço, náusea, falta de concentração entre outros), na qual o 0 significava a ausência de sintomas e o 10 a presença dos sintomas de forma grave. Além disso, os voluntários descreveram a quantidade e a frequência de consumo dos alimentos/bebidas ricos em cafeína para um cálculo estimado de consumo mensal.26

Após a timpanometria, foram efetivados os testes clínicos vestibulares, nas provas calóricas vestibulares foi usado o Variotherm Plus Caloric Irrigator para administrar a água, enquanto o software l‐Portal VNG foi usado para coletar e analisar os movimentos oculares dos sujeitos. O sistema de potencial evocado Teca foi usado para obtenção do c‐Vemp. O estimulo sonoro tipo toneburst foi dado em frequência de 500 Hz e foram apresentados a uma taxa de aproximadamente 6 Hz. Cada aferição de c‐Vemp era promediada por 100 estímulos, o tempo de recuperação foi de aproximadamente um minuto após cada período de aquisição de dados, para reduzir os efeitos da fadiga muscular. Os sujeitos foram solicitados a levantar a cabeça de uma posição supina e afastá‐la da orelha estimulada para produzir contração muscular do esternocleiomastoideo.26

Os resultados revelaram que a ingestão de uma quantidade moderada de cafeína não influenciou substancialmente a interpretação clínica de qualquer dos testes. Além disso, os resultados do questionário de retirada de cafeína indicaram que a interrupção abrupta do consumo de cafeína pode resultar em sintomas de abstinência, como dor de cabeça, náusea, cansaço e ansiedade.26

O estudo de Souza e Suzuki (2014)27 teve como objetivo avaliar a interferência do uso agudo de cafeína no reflexo vestibulocólico por meio do c‐Vemp. Foram selecionados 25 indivíduos adultos jovens e saudáveis, 68% do sexo feminino e 32% do masculino, com média de 29 anos (25‐37), em uma amostra de conveniência. Esses foram orientados a estar sem o uso de cafeína há pelo menos 24 horas para o teste vestibular e após o Vemp foram fornecidas duas cápsulas de cafeína pura (210 mg/cápsula) com 100 mL de água filtrada para cada um dos voluntários. Após o intervalo médio de 60 minutos o segundo exame foi feito.

Cada voluntário foi colocado em posição padronizada de forma que o músculo esternocleidomastoideo ficasse contraído no momento do registro. O estímulo sonoro rarefeito, tipo toneburst, foi dado em uma intensidade de 100 decibéis em nível de pressão sonora e frequência de 1.000 Hertz. A taxa de apresentação foi de 5 Hertz. Foram feitas duas aferições binaurais, com intervalo de dois minutos entre elas para descanso do paciente e foram promediados 200 estímulos em cada uma dessas aferições. Verificou‐se que não houve diferença estatisticamente significante entre os exames antes e após o uso da droga.27

Os dois artigos incluídos usaram o mesmo grupo de voluntários para compor o grupo controle e o grupo intervenção do estudo, o Vemp foi feito em um primeiro momento sem a prévia administração da cafeína e em um segundo momento após a administração da cafeína. A quantidade/dose e a forma de fornecimento da cafeína se diferiram nos dois trabalhos. Em ambos os estudos optou‐se por analisar o c‐Vemp, porém a metodologia usada pelos autores se diferiu. A latência de P13/P1 e N23/N1, bem como a amplitude da resposta P13‐N23/P1N1, foram registradas e analisadas para cada sujeito dos estudos supracitados.

Avaliação do risco de viés

A análise da qualidade dos artigos incluídos, e consequentemente do risco de viés, é mostrada na tabela 3. Os dois estudos incluídos26,27 caracterizam‐se como estudo observacionais e transversais. Além disso, na avaliação final obtiveram percentual de qualidade igual a 70% (7/10) e o outro 80% (8/10).

Tabela 3.

Qualidade dos artigos incluídos, segundo a escala Newcastle‐Otawa de avaliação da qualidade

Autores  Representatividade
da amostra 
Tamanho da amostra justificadoa  Taxa das não respostas  Apuração
da exposição 
Comparabilidade  Avaliação
dos resultados 
Teste estatístico
apropriado 
Avaliação
finalb 
McNerney, Coad, Burkard (2014)26  Não representativa (0)  Sim (1)  0% (1)  Ferramenta validada (2)  Sim (2)  Relatório próprio (1)  Sim (1)  8/10 
Sousa, Suzuki (2014)27  Não representativa (0)  Não (0)  0% (1)  Ferramenta validada (2)  Sim (2)  Relatório próprio (1)  Sim (1)  7/10 
a

Critério mínimo de n ≥ 30 (teorema do limite central).

b

Pontuação máxima de 10 estrelas. Resultado apresentado na forma: pontos obtidos/pontuação máxima.

Nenhum dos dois trabalhos preocupou‐se com a representatividade da amostra, ou seja, escolheram os grupos por conveniência. O tamanho da amostra de adultos de um dos trabalhos26 foi satisfatório, uma vez que se adequam ao teorema do limite central, com amostras maiores do que 30 sujeitos. Contudo, nenhum deles estimou o tamanho de suas amostras.

A taxa de não resposta foi satisfatória em ambos os estudos. Os trabalhos26,27 usaram ferramentas validadas para a coleta dos dados e a comparabilidade entre o grupo controle e o grupo que recebeu a cafeína também foi possível para todos eles. A avaliação dos resultados foi feita em todos os trabalhos por meio de relatório próprio. Por fim, todos os estudos usaram testes estatísticos apropriados.

Análise de dados

Consideraram‐se os objetivos e as metodologias dos artigos selecionados e foram feitas análises quantitativas dos dados que apresentaram resultados em comum. Assim, a metanálise foi feita para as latências de P13 e N13 e encontram‐se ilustradas nas figuras 2 e 3, respectivamente.

Figura 2.
(0,13MB).

Efeito global da cafeína sobre a latência P13.

Figura 3.
(0,13MB).

Efeito global da cafeína sobre a latência N23.

O uso da cafeína apresentou uma maior influência sobre a latência P13 (RR: −0,04 [0,51‐–0,42], p = 0,85); porém, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre grupos.

O não uso da cafeína apresentou uma maior influência sobre a latência N23 (RR: 0,08 [−0,66–0,81], p = 0,84), porém, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre grupos.

Para as amplitudes também não foram observadas diferenças significativas, porém não foi possível fazer a metanálise como feita no parâmetro da latência, pois o trabalho de Sousa e Suzuki (2014)27 não apresentou os dados por componentes separados (P13 e N23), e sim a interamplitude de P13‐N23.

Discussão

A qualidade metodológica dos trabalhos foi satisfatória, atingiu pelos menos 70% da pontuação máxima. O fato de os estudos26,27 terem usado amostragem por conveniência é preocupante, e muito comum nos trabalhos científicos, pois não permite a composição de amostras representativas. Por outro lado, usaram ferramentas validadas para coleta de dados e testes estatísticos apropriados, o que demonstra uma maior preocupação com a qualidade das análises quantitativas.

Os estudos mostram que a cafeína não altera os padrões de respostas no c‐Vemp em indivíduos normais. Diante de tal resultado fazem‐se necessárias a investigação e a observação de se tal ausência de interferência no c‐Vemp também ocorre em pacientes labirintopatas. A restrição, abrupta e total, da cafeína no preparo para os exames otoneurológicos gera inconvenientes como cefaleia, náuseas, ansiedade e irritabilidade pela abstinência da substância. Assim, se não houver interferência da cafeína nas respostas do c‐Vemp em pacientes em investigação otoneurológica, podem‐se evitar os inconvenientes acima descritos ao se manter o consumo da cafeína previamente ao exame. Não se podem fazer generalizações se considerarmos as limitações apresentadas e especialmente a ausência de ensaios clínicos randomizados a respeito dessa temática.

Verifica‐se a importância da feitura de outros estudos para analisar se esses mesmos resultados são aplicáveis em adultos mais velhos e em indivíduos com função vestibular comprometida e ainda se o uso crônico da cafeína e se a captação do Vemp em outros músculos não afetam os resultados.

Conclusão

Diante dos artigos encontrados não há evidências de que a cafeína tem efeito sobre o potencial evocado miogênico vestibular em sujeitos normais, são necessários mais estudos com metodologias adequadas.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Apêndice 1
Estratégias de busca usadas nas bases de dados

Medline (via PubMed) 
#1 (“caffeine” [MeSH Terms] OR “caffeine” [Text Word] OR “coffee” [MeSH Terms] OR “coffee” [Text Word]) 
#2 “vestibular evoked myogenic potentials” [MeSH Terms] OR “ocular vestibular evoked myogenic potentials [Text Word] OR “vestibular evoked myogenic potentials” [MeSH Terms] OR “cervical vestibular evoked myogenic potentials” [Text Word] 
#4 #1 AND #2 
 
Cochrane Clinical Trials 
(“caffeine” OR “coffee”) AND (“vestibular evoked myogenic potentials” OR “ocular vestibular evoked myogenic potentials” OR “cervical vestibular evoked myogenic potentials”): ti, ab, kw 
 
ScienceDirect 
ALL (“caffeine” OR “coffee”) and ALL (“vestibular evoked myogenic potentials” OR “ocular vestibular evoked myogenic potentials” OR “cervical vestibular evoked myogenic potentials”) 
 
ClinicalTrials.gov 
“caffeine” OR “coffee” AND “vestibular evoked myogenic potentials” OR “ocular vestibular evoked myogenic potentials” OR “cervical vestibular evoked myogenic potentials” | Closed studies | Studies with results | Interventional studies 
 
Lilacs 
“cafeína” AND “potencial evocado miogênico vestibular” 
 
Scopus 
(“caffeine” OR “coffee”) AND (“vestibular evoked myogenic potentials” OR “ocular vestibular evoked myogenic potentials” OR “cervical vestibular evoked myogenic potentials”) 
 
Web of Science 
(“caffeine” OR “coffee”) AND (“vestibular evoked myogenic potentials” OR “ocular vestibular evoked myogenic potentials” OR “cervical vestibular evoked myogenic potentials”) 
Circumpolar Health Bibliographic Database; The New York Academy of Medicine, ClinicalEvidence.com 
“caffeine” OR “coffee” AND “vestibular evoked myogenic potentials” OR “ocular vestibular evoked myogenic potentials” OR “cervical vestibular evoked myogenic potentials” 
 
SciELO 
“caffeine” AND “vestibular evoked myogenic potentials” 
 
Opengrey.eu 
“caffeine” OR “coffee” AND “vestibular evoked myogenic potentials” OR “ocular vestibular evoked myogenic potentials” OR “cervical vestibular evoked myogenic potentials” 
 
DissOnline.d
“caféine” AND “vestibulaires potentiel évoqué myogénique” 

Apêndice 2
Newcastle‐Ottawa Scale (adaptada) para avaliação da qualidade de estudos transversais

Seleção: (Máximo de 5 estrelas) 
1) Representatividade da amostra
a) Verdadeiramente representativa da média na população‐alvo.* (Todos os sujeitos ou amostragem aleatória) 
b) Um pouco representativa da média na população‐alvo.* (Amostragem não aleatória) 
c) Grupo de usuários selecionados. 
d) Descrição da estratégia de amostragem. 
2) Tamanho da amostra: 
a) Justificada e satisfatória.* 
b) Não se justifica. 
3) Não respostas: 
a) A comparabilidade entre as respostas e não respostas é estabelecida e a taxa de resposta é satisfatória.* 
b) A taxa de resposta não é satisfatória ou a comparabilidade entre as respostas e não respondentes é insatisfatória. 
c) Descrição da taxa de resposta ou as características de respostas e não respostas. 
4) Apuração da exposição (fator de risco): 
a) Ferramenta de medição validada.** 
b) Não validada ferramenta de medição, mas a ferramenta está disponível ou descrita.* 
c) Descrição da ferramenta de medição. 
 
Comparabilidade: (Máximo de 2 estrelas) 
1) Os objetos em diferentes grupos de resultados são comparáveis, com base no projeto do estudo ou análise. Fatores de confusão são controlados. 
a) O estudo leva em conta o fator mais importante (selecione um).* 
b) O controle do estudo por qualquer fator adicional.* 
 
Resultado: (Máximo 3 estrelas) 
1) Avaliação dos resultados: 
a) Avaliação cega independente.** 
b) Relacionamento de registros ** 
c) Relatório próprio.* 
d) Sem descrição. 
2) Teste estatístico: 
a) O teste estatístico usado para analisar os dados são claramente descritos e adequados e a medição da associação é apresentada, inclusive intervalos de confiança e o nível de probabilidade (valor‐p).* 
b) O teste estatístico não é apropriado, não descrito ou incompleto. 
Essa escala foi adaptada a partir da Escala de Avaliação da Qualidade Newcastle‐Ottawa para estudos de coorte para fazer uma avaliação dos estudos transversais de qualidade para a revisão sistemática, “intenções são Saúde dos Trabalhadores para vacinar relacionada ao seu conhecimento, crenças e atitudes? Uma revisão sistemática”. 

Referências
[1]
A. Smith
Effects of caffeine on human behavior
Food Chem Toxicol, 40 (2002), pp. 1243-1255
[2]
T.E. Graham
Caffeine and exercise: metabolism, endurance and performance
Sports Med, 31 (2001), pp. 785-807
[3]
F.T. Delbeke,M. Debackere
Caffeine: use and abuse in sports
Int J Sports Med, 5 (1984), pp. 179-182 http://dx.doi.org/10.1055/s-2008-1025901
[4]
B.H. Jacobson,F.A. Kulling
Health and ergogenic effects of caffeine
Br J Sports Med, 23 (1989), pp. 34-40
[5]
L.L. Spriet
Caffeine and performance
Int J Sport Nutr Exerc Metab, 5 (1995), pp. 84-99
[6]
L.A. Anjos
Cafeína e atividade física prolongada: revisão de literatura
Rev Bras Ciênc Mov, 1 (1987), pp. 27-36
[7]
C.C. Rogers
Caffeine
Sports Med, 13 (1985), pp. 38-40
[8]
P.M. Clarkson
Nutritional ergogenic aids: caffeine
Int J Sport Nutr, 3 (1993), pp. 103-111
[9]
T.E. Graham,J.W. Rusj,M.H. Van Soeren
Caffeine and exercise: metabolism and performance
Can J Appl Physiol, 19 (1994), pp. 111-138
[10]
A. Nehlig,G. Debry
Caffeine and sports activity: a review
Int J Sports Med, 15 (1994), pp. 215-223 http://dx.doi.org/10.1055/s-2007-1021049
[11]
C.J.D. Sinclair,J.D. Geiger
Caffeine use in sport: a pharmacological review
J Sports Med Phys Fitness, 40 (2000), pp. 71-79
[12]
P.J. Durlac,R. Edmunds,L. Howard,S.P. Tipper
A rapid effect of caffeinated beverages on two choice reaction time tasks
Nutr Neurosci, 5 (2002), pp. 433-442 http://dx.doi.org/10.1080/1028415021000039211
[13]
P.E. Stephenson
Physiologic and psychotropic effects of caffeine on man
J Am Diet Assoc, 71 (1977), pp. 240-247
[14]
E. Applegate
Effective nutritional ergogenic aids
Int J Sport Nutr, 9 (1999), pp. 229-239
[15]
C.M. Fillmore,L. Bartoli,R. Bach,Y. Park
Nutrition and dietary supplements
Phys Med Rehabil Clin N Am, 10 (1999), pp. 673-703
[16]
T.E. Graham,L.L. Spriet
Metabolic, catecholamine and exercise performance responses to varying doses of caffeine
J Appl Physiol, 78 (1995), pp. 867-874 http://dx.doi.org/10.1152/jappl.1995.78.3.867
[17]
S.H. Snyder,P. Sklar,P. Sklar
Behavioral and molecular actions of caffeine: focus on adenosine
J Psychiatr Res, 18 (1984), pp. 91-106
[18]
J.A. Ribeiro,A.M. Sebastião,A. de Mendonça
Adenosine receptors in the nervous system: pathophysiological implications
Prog Neurobiol, 68 (2002), pp. 377-392
[19]
M.C.R. Camargo,M.C.F. Toledo
Teor de cafeína em cafés brasileiros
Ciênc Tecnol Aliment, 18 (1999), pp. 421-424
[20]
T.W. Rall
Goodman & Gilman: as bases farmacológicas da terapêutica, 7a ed., pp. 390-394
[21]
D.E. Augello
Farmacologia, 6ª ed., pp. 428-429
[22]
R.R. Laranjeira,S. Nicastri
Manual de psiquiatra, pp. 83-112
[23]
D. Moher,A. Liberati,J. Tetzlaff,D.G. Altman,PRISMA Group
Preferred reporting items for systematic reviews and meta‐analyzes: the PRISMA statement
Ann Intern Med, 151 (2009), pp. 264-269
[24]
J.A.C. Sterne,M. Egger,D. Moher
Addressing reporting biases
Cochrane handbook for systematic reviews of interventions version 5.1.0 [updated March 2011],
[25]
J.P.T. Higgins,J.J. Deeks
Selecting studies and collecting data
Cochrane handbook for systematic reviews of interventions version 5.1.0 [updated March 2011],
[26]
K. McNerney,M.L. Coad,R. Burkard
The influence of caffeine on calorics and cervical vestibular evoked myogenic potentials (c‐Vemps)
J Am Acad Audiol, 25 (2014), pp. 261-267 http://dx.doi.org/10.3766/jaaa.25.3.5
[27]
A.M. Sousa,F.A. Suzuki
O efeito da cafeína no potencial evocado miogênico vestibular cervical em indivíduos saudáveis
Braz J Otorhinolaryngol, 80 (2014), pp. 226-230

Como citar este artigo: Souza ME, Costa KV, Menezes PL. Effect of caffeine on vestibular evoked myogenic potential: a systematic review with meta‐analysis. Braz J Otorhinolaryngol. 2018;84:381–8.

A revisão por pares é da responsabilidade da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico‐Facial.

Copyright © 2017. Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial
Idiomas
Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

Inscreva-se a Newsletter

Opções de artigo
Ferramentas
Política de cookies
Utilizamos cookies próprios e de terceiros para melhorar nossos serviços e mostrar publicidade relacionada às suas preferências, analisando seus hábitos de navegação. Se continuar a navegar, consideramos que aceita o seu uso. Você pode alterar a configuração ou obter mais informações aquí.