Compartilhar
Informação da revista
Compartilhar
Compartilhar
Baixar PDF
Mais opções do artigo
Visitas
122
Artigo de revisão
DOI: 10.1016/j.bjorlp.2018.05.008
Open Access
Different clinical presentation of intralabyrinthine schwannomas – a systematic review
Diferentes apresentações clínicas do schwannoma intralabiríntico – uma revisão sistemática
Visitas
122
Thaís Gomes Abrahão Elias, Adriana Perez Neto, Ana Tereza Silveira Zica, Marcos Luiz Antunes
Autor para correspondência
mantunes@uol.com.br

Autor para correspondência.
, Norma de Oliveira Penido
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, São Paulo, SP, Brasil
Este item recebeu
122
Visitas

Under a Creative Commons license
Recebido 31 Janeiro 2018, Aceitado 17 Maio 2018
Informação do artigo
Resume
Texto Completo
Bibliografia
Baixar PDF
Estatísticas
Figuras (7)
Mostrar maisMostrar menos
Tabelas (4)
Tabela 1. Sistema de Classificação de Kennedy modificado7
Tabela 2. Estratégia de busca
Tabela 3. Principais subtipos dos schwannomas intralabirínticos
Tabela 4. Principais manifestações dos schwannomas intralabirínticos
Mostrar maisMostrar menos
Abstract
Introduction

Intralabyrinthine schwannoma is a rare, benign tumor that affects the most terminal portions of the vestibular and cochlear nerves. This tumor can be classified into 10 subtypes, according to its inner ear location.

Objective

To carry out a comprehensive review of the most frequent auditory manifestations secondary to the intralabyrinthine schwannoma, describing the possible underlying pathophysiological mechanisms.

Methods

Systematic review of the literature until October 2017 using the PubMed, Web of Science and Scopus databases. The inclusion criteria were clinical manifestations of the intralabyrinthine schwannoma. Three researchers independently assessed the articles and extracted relevant information. The description of a case of an intravestibular subtype intralabyrinthine schwannoma with multiple forms of clinical presentations was used as an example.

Results

Twenty‐seven studies met our inclusion criteria. The most common intralabyrinthine schwannoma subtype was the intracochlear, followed by the intravestibular type. All the cases demonstrated hearing loss, usually progressive hearing loss.

Conclusion

The diagnosis of intralabyrinthine schwannomas is based on high‐resolution magnetic resonance imaging and should be included in the differential diagnosis of patients with vestibulocochlear complaints. Although there are approximately 600 cases in the literature, we still lack a detailed description of the clinical evolution of the patients, correlating it with MRI findings of temporal bones and tumor subtype.

Keywords:
Schwannoma
Neuroma
Neurilemmoma
Intralabyrinthine schwannoma
Resumo
Introdução

Schwannoma intralabiríntico é um tumor benigno, raro, que afeta as porções mais terminais dos nervos vestibular e coclear. Este tumor pode ser classificado, de acordo com sua localização na orelha interna, em 10 subtipos.

Objetivo

Fazer uma revisão abrangente das manifestações auditivas mais frequentes secundárias ao schwannoma intralabiríntico e descrever os possíveis mecanismos fisiopatológicos subjacentes.

Método

Revisão sistemática da literatura até outubro de 2017 nas bases de dados PubMed, Web of Science e Scopus. O critério de inclusão foi manifestações clínicas do schwannoma intralabiríntico. Três pesquisadores avaliaram de forma independente os artigos e extraíram informações relevantes. Exemplificamos com a descrição de um caso de schwannoma intralabiríntico subtipo intravestibular com múltiplas formas de apresentações clínicas.

Resultados

Vinte sete estudos contemplaram nossos critérios de inclusão. O subtipo do schwannoma intralabiríntico mais comum encontrado foi o intracoclear, seguido pelo intravestibular. Todos os casos apresentaram alteração auditiva, normalmente perda auditiva progressiva.

Conclusão

O diagnóstico de schwannomas intralabirínticos baseia‐se em exames de ressonância magnética de alta resolução e deve ser incluído no diagnóstico diferencial de pacientes com queixas vestibulococleares. Apesar de termos aproximadamente 600 casos na literatura, ainda nos falta descrição detalhada da evolução clínica dos pacientes em correlação com achados na ressonância magnética de ossos temporais e o subtipo tumoral.

Palavras‐chave:
Schwannoma
Neuroma
Neurilemoma
Schwannoma intralabiríntico
Texto Completo
Introdução

Schwannoma intralabiríntico é um tumor benigno, raro, que afeta as porções mais terminais dos nervos vestibular e coclear. Pode localizar‐se no vestíbulo, cóclea ou canais semicirculares.1 Os pacientes normalmente apresentam sintomas inespecíficos, inclusive perda auditiva, zumbido e vertigem.2 Dentre os sintomas resultantes, o mais frequente é a perda auditiva, acomete 95% dos pacientes. Na maioria das vezes essa perda é lenta e progressiva, pode, no entanto, ser súbita ou flutuante. Sintomas menos frequentes incluem zumbido (51%), desequilíbrio (35%), vertigem (22%) e plenitude aural (2%), que podem estar presentes de forma isolada ou combinada.3,4

Em 1972, Karlan et al.5 relataram os primeiros achados intraoperatórios de schwannoma intralabiríntico, achados que foram complementados em 1979 com a descrição histopatológica de um osso temporal de um paciente com a mesma lesão.6 Porém, apenas a partir de 1987 foram publicados estudos que ressaltaram a importância da ressonância magnética (RM) no diagnóstico dessa doença.7 Atualmente, o exame considerado padrão‐ouro para diagnóstico de schwannoma intralabiríntico é a RM de ossos temporais, que pode evidenciar realce do tumor nas imagens em T1 pós‐gadolíneo e falha de preenchimento nas imagens em T2.5,6

O schwannoma intralabiríntico pode ser classificado de acordo com sua localização na orelha interna. Inicialmente, foram identificados sete subtipos por Kennedy et al. Posteriormente, em 2013, Van Abel et al., com o objetivo de adotar nomenclatura mais específica quanto à localização do tumor, acrescentaram mais três subtipos (tabela 1).7,8 Ainda existem controvérsias sobre qual subtipo do schwannoma intralabiríntico seria o mais comum; no entanto, a maioria dos estudos afirma que a localização intracoclear é a mais frequentemente encontrada, os canais semicirculares são mais raramente envolvidos.9

Tabela 1.

Sistema de Classificação de Kennedy modificado7

Subtipos de schwannoma  Localizacão 
Intravestibular  Vestíbulo e/ou CSC 
Intracoclear  Cóclea 
Intravestibulococlear  Vestíbulo e/ou CSC + cóclea 
Transmodiolar  Cóclea + MAI 
Transmacular  Vestíbulo e/ou CSC + MAI 
Transótico  Vestíbulo e/ou CSC + Cóclea + MAI + 
Orelha média   
Timpanolabiríntico  Vestíbulo e/ou CSC + cóclea + Orelha média 
Translabiríntico  Vestíbulo e/ou CSC + cóclea + MAI 
Envolve o APC  APC±Cóclea±vestíbulo e/ou CSC±MAI±Orelha média 
Não especificado  ±Cóclea±vestíbulo e/ou CSC 

APC, ângulo ponto cerebelar; CSC, canais semicirculares; MAI, meato acústico interno.

Para o nosso conhecimento, nenhum estudo prévio analisou criticamente as características da perda auditiva secundária ao schwannoma intralabiríntico e sua relação com o subtipo da lesão. Assim, o objetivo deste trabalho é fazer uma revisão abrangente das manifestações auditivas mais frequentes secundárias a schwannoma intralabiríntico, e descrever os possíveis mecanismos fisiopatológicos subjacentes. Paralelamente, relatamos o caso de um paciente com perda auditiva secundária ao schwannoma intralabiríntico subtipo intravestibular.

MétodosRevisão sistemática

Fizemos revisão sistemática nos bancos de dados Pubmed, Web of Science e Scopus até outubro de 2017. Foram usados os seguintes descritores, indicados pelo DeCS, na língua portuguesa (Schwannoma, Neurilemoma, Neuroma) e na língua inglesa (Schwannoma, Neurilemmoma, Neuroma). As estratégias de busca para as diversas bases encontram‐se na tabela 2.

Tabela 2.

Estratégia de busca

Base de dados  Estratégia de busca  Artigos 
Pubmed  (Neurilemmoma or Neuroma or Schwannoma) and (Intralabyrinthine100 
Web of Science  (Neurilemmoma or Neuroma or Schwannoma) and (Intralabyrinthine113 
Scopus  (Neurilemmoma or Neuroma or Schwannoma) and (Intralabyrinthine117 

Usaram‐se como critérios de inclusão estudos que descreviam manifestações clínicas do schwannoma intralabiríntico, independentemente de seu subtipo. Inicialmente, o título e o resumo em inglês foram lidos e os estudos que obedeciam aos critérios de inclusão foram lidos na íntegra.

Três pesquisadores avaliaram de forma independente os artigos e extraíram informações relevantes e discrepâncias foram resolvidas por consenso. De forma complementar, exemplificamos os achados da revisão de literatura com a descrição clínica de um caso de schwannoma intralabiríntico (subtipo intravestibular) com múltiplas formas de apresentação clínica.

ResultadosDescrição das buscas sistematizadas na literatura

A busca por artigos nas bases de dados identificou 330 artigos, dentre os quais 27 foram incluídos nesta revisão (fig. 1).

Figura 1.
(0,07MB).

Fluxograma que demonstra o processo de seleção dos artigos.

De acordo com a classificação do Oxford Centre for Evidence‐Based Medicine sobre os níveis de evidência científica dos 27 artigos lidos na íntegra, cinco eram revisão sistemática (com homogeneidade) de estudos de coorte (nível 2 A), um de observação de resultados terapêuticos, estudo ecológico (nível 2 C), e 21 relatos de caso (nível 4).

Em relação à principal localização do tumor, houve consenso entre os estudos de que o subtipo intracoclear é o mais frequente. Na sequência, o mais frequente foi o intravestibular em todos os estudos, à exceção do publicado por Salzman et al., que encontrou o subtipo transmodiolar como segundo mais frequente (tabela 3).

Tabela 3.

Principais subtipos dos schwannomas intralabirínticos

Autor  Ano  Localização 
Gosselin et al.20156650,9% Intracoclear 
38,2% Intravestibular 
10,9% Intravestibulococlear 
Dubernard et al.201411050% Intracoclear 
19,2% Intravestibular 
14,5% Transmodiolar 
11,8% Intravestibulocolear 
2,7% Transmacular 
1,8% Timpanolabiríntico 
Van Abel et al.201323451% Intracoclear 
29% Intravestibular 
9% Intravestibulococlear 
5% Transmodiolar 
1% Transmacular 
1% Translabiríntico 
Salzman et al.20124531,11% Intracoclear 
28,88% Transmodiolar 
15,55% Intravestibular 
11,11% Intravestibulococlear 
8,88% Transmacular 
4,47% Transótico 
Tieleman et al.20085280,7% Intracoclear 
13,5% Intravestibular 
5,8% Intravestibulococlear 
Kennedy et al.20042832% Intracoclear 
21% Intravestibular 
32% Transmodiolar 
11% Transmacular 
4% Transótico 

Quanto ao quadro clínico dos pacientes, as principais manifestações clínicas estão expressas na tabela 4 e figura 2. Tem‐se relato da conduta tomada em 486 pacientes. Em 276 pacientes (56%) optou‐se por seguimento clínico com RM de forma seriada. Em 210 (44%) pacientes, optou‐se pelo tratamento cirúrgico, por tratar‐se, na maioria das vezes, de pacientes com perda de audição profunda e crescimento tumoral evidenciado em exame de imagem e/ou vertigem incapacitante sem melhoria com tratamento clínico. Dentre os 210 pacientes submetidos ao tratamento cirúrgico, há relato sobre cirurgia de implante coclear simultaneamente ou sequencialmente à exérese do tumor em 11 pacientes.

Tabela 4.

Principais manifestações dos schwannomas intralabirínticos

Autor  Ano  Quadro clínico 
Plontke et al.  2017  12  100% Perda auditiva 
Covelli et al.  2017  Flutuação auditiva e vertigem 
Fukushima et al.  2017  Perda auditiva súbita 
Plontke et al.  2017  Perda auditiva súbita 
Sabatino et al.  2017  Perda auditiva rapidamente progressiva e vertigem 
Jerin et al.2016540% perda auditiva progressiva 
40% perda auditiva súbita 
20% vertigem 
Shupak et al.  2016  95% perda auditiva progressiva 
Gosselin et al.  2015  66  Não há descrição do caso clínico 
Lee et al.  2015  Perda auditiva súbita e vertigem 
Dubernard et al.201411094,5% perda auditiva progressiva 
59,1% vertigem 
Bittencourt et al.  2014  Flutuação auditiva e tinnitus 
Kim et al.  2013  Perda auditiva súbita 
Schutt et al.  2013  Flutuação auditiva plenitude aural e vertigem 
Van Abel et al.201323484% perda auditiva progressiva 
3% flutuação auditiva 
43% vertigem 
Salzman et al.20124560% perda auditiva progressiva 
31,11% perda auditiva súbita 
8,89% flutuação auditiva 
35,56% vertigem 
Gordts et al.  2011  Flutuação auditiva e tinnitus 
Magliulo et al.  2009  Perda auditiva súbita e vertigem 
Brozek‐Madry et al.  2009  Perda auditiva súbita e vertigem 
Tieleman et al.20085283,67% perda auditiva progressiva 
14,28% perda auditiva súbita 
19,23% vertigem 
Jia et al.2008475% perda auditiva progressiva 
25% perda auditiva súbita 
75% vertigem 
Nishimura et al.  2008  Perda auditiva súbita e tinnitus 
Lella et al.2007771,42% perda auditiva progressiva 
28,5% perda auditiva súbita 
57,14% vertigem 
Kennedy et al.20042861% perda auditiva progressiva 
32% perda auditiva súbita 
7% flutuação auditiva 
71% tinnitus 
29% vertigem 
Green et al.1999475% perda auditiva progressiva 
25% perda auditiva súbita 
75% vertigem 
Deux et al.  1998  Perda auditiva progressiva, tinnitus e vertigem 
Weed et al.  1994  Perda auditiva progressiva e tinnitus 
De Lozier et al.  1979  Perda auditiva progressiva e vertigem 
Figura 2.
(0,08MB).

Principais manifestações dos schwannomas intralabirínticos nos 27 artigos.

Descrição da apresentação de um caso de schwannoma intralabiríntico intravestibular segundo a classificação de Kennedy modificada7

Paciente do sexo feminino, 38 anos, comparece em consulta ambulatorial com otorrinolaringologista por quadro de tontura tipo instabilidade havia três anos. Refere que cada episódio tinha duração fugaz (alguns segundos), sem quaisquer fatores desencadeantes ou de melhoria ou pioria dos sintomas. Os quadros eram de pequena intensidade, não atrapalhavam o desempenho de atividades do dia a dia. Após algumas semanas do início do quadro, a tontura se tornou rotatória, foi desencadeada por movimentação cefálica para esquerda. Essa tontura de nova característica tinha duração de minutos e também cessava espontaneamente. Quando perguntada, negou cefaleia, sintomas visuais ou auditivos associados à tontura. Também negou comorbidades ou ingestão contínua de medicamentos para qualquer doença.

O exame físico geral, a avaliação otorrinolaringológica e os testes neurológicos não evidenciaram alterações, assim como avaliação auditiva (audiometria e imitanciometria). A paciente também foi submetida a videoeletronistagmografia, que demonstrou hipofunção à esquerda na prova calórica. Considerando os resultados do exame físico, audiométrico e de função vestibular, introduziu‐se terapia com β‐histina, cuja dose foi aumentada gradativamente nos primeiros 60 dias até atingir a dose máxima recomendada (216 mg/dia), além de meclizina. Porém, a paciente não apresentou melhoria com o uso das medicações.

Quatro meses após a consulta inicial, a paciente percebeu pioria na frequência e intensidade da tontura rotatória quando exposta a sons específicos, como alarmes e sirenes; a tontura cessava tão logo o som causador da tontura era interrompido. Seis meses após o início do quadro, percebeu também plenitude aural em orelha esquerda associada à tinnitus tipo chiado, além de dificuldade de compreensão de sons nessa orelha.

Tais sintomas (plenitude, tinnitus e alterações de compreensão) eram flutuantes, com momentos de pioria e melhoria espontânea – nos momentos de pioria auditiva, percebia também pioria da tontura rotatória. Considerando a pioria dos sintomas, paciente fez novas audiometrias seriadas, que evidenciaram flutuação dos limiares auditivos compatíveis com a pioria clínica. Solicitou‐se, então, RM de ossos temporais, que evidenciou lesão em vestíbulo esquerdo (fig. 3).

Figura 3.
(0,38MB).

A) Audiometria que evidencia perda neurossensorial moderada em orelha esquerda. B) RM de ossos temporais T2, corte axial, com hipossinal em vestíbulo esquerdo. C) RM de ossos temporais, corte axial, T1 com contraste, lesão hipercaptante, em vestíbulo esquerdo.

Ao fazer exame da função vestibular pela detecção de reflexo vestíbulo‐ocular por teste do impulso cefálico nesse momento, evidenciou‐se reflexo vestíbulo‐ocular normal em todos os canais semicirculares direitos pesquisados. Em contrapartida, para os canais esquerdos, houve ganho de reflexo vestíbulo‐ocular diminuído nos canais lateral e anterior, com sacadas corretivas cobertas e descobertas, porém ganho do reflexo vestíbulo‐ocular do canal posterior esquerdo apresentou‐se normal (fig. 4). Com base nesse exame concluiu‐se hipofunção de função vestibular na topografia de nervo vestibular superior esquerdo.

Figura 4.
(0,51MB).

Teste do impulso cefálico que evidencia hipofunção de função vestibular à esquerda.

Por ser uma lesão milimétrica, com pouca repercussão do ponto de vista auditivo, optou‐se por acompanhar paciente com repetição de RM e audiometria anualmente (fig. 5).

Figura 5.
(0,39MB).

A) Audiometria que evidencia perda neurossensorial leve em orelha esquerda. B) RM de ossos temporais T2, corte axial, com hipossinal em vestíbulo esquerdo. C) RM de ossos temporais, corte axial, T1 com contraste, lesão hipercaptante, em vestíbulo esquerdo.

No terceiro ano de seguimento a paciente apresentou perda súbita da audição à esquerda, sem pioria das queixas vestibulares. Nova audiometria evidenciou perda auditiva profunda em orelha esquerda, compatível com o diagnóstico de surdez súbita (fig. 5).

Nesse momento, iniciamos tratamento com prednisolona oral (1 mg/Kg/dia) por 21 dias em dose regressiva e solicitamos RM de ossos temporais (fig. 6). A RM evidenciou crescimento tumoral de cerca de 1mm em comparação com último exame feito dois anos antes (fig. 5). Audiometria evidenciou pioria considerável dos limiares auditivos em orelha esquerda (fig. 6).

Figura 6.
(0,46MB).

A) Audiometria que evidencia perda neurossensorial profunda em orelha esquerda. B) RM de ossos temporais T2, corte coronal, com hipossinal em vestíbulo esquerdo. C) RM de ossos temporais, corte axial, T1 com contraste, lesão hipercaptante, em vestíbulo esquerdo.

Repetindo‐se o exame da função vestibular pela detecção de reflexo vestíbulo‐ocular por teste do impulso cefálico nesse momento, manteve‐se a normalidade dos canais semicirculares direitos pesquisados. Notou‐se diminuição importante do ganho à esquerda em todos os canais semicirculares pesquisados com sacadas compensatórias (fig. 7).

Figura 7.
(0,59MB).

Teste do impulso cefálico que evidencia hipofunção de função vestibular à esquerda em todos os canais semicirculares pesquisados.

Após os 21 dias de tratamento proposto, a paciente não apresentou melhoria do ponto de vista auditivo ou do equilíbrio corporal. Optou‐se, portanto, por tratamento cirúrgico via translabiríntica, já que paciente não apresentava mais audição para ser preservada como anteriormente.

Discussão

Ainda é difícil estimar a real prevalência do schwannoma intralabiríntico, devido ao pequeno número de casos relatados e pela inespecificidade de suas manifestações clínicas, o que dificulta seu diagnóstico. Ainda, o quadro clínico pode sugerir outros diagnósticos mais frequentes, que incluem doença de Menière, neurite vestibular ou surdez súbita idiopática.10 Em nossa revisão, encontramos 526 casos relatados de schwannoma intralabiríntico. Em relação ao subtipo mais frequente, metanálises e revisões sistemáticas sugerem que o subtipo mais encontrado é o intracoclear, seguido consecutivamente pelo intravestibular e intravestibulococlear (tabela 3).

Outro tema ainda discutido em diversos estudos é a origem desse tumor. Apesar de alguns estudos sugerirem que não é possível identificar claramente a origem do tumor,11 Neff et al.,12 em uma revisão de 55 casos (23 intracocleares, 25 intravestibulares e sete que envolveram cóclea e vestíbulo), concluíram que não parece haver diferença entre a incidência da gênese do tumor no nervo coclear ou nervo vestibular.

Quanto ao quadro clínico dos pacientes com schwannoma intralabiríntico, ainda faltam estudos que consigam fazer correlação da localização do tumor com a queixa do paciente. Além disso, estudos que descrevem seguimento de longo prazo, alterações no quadro clínico ao longo da evolução e evolução radiológica do tumor são raros e com casuística limitada. Portanto, o nosso estudo parece ser o primeiro da literatura a correlacionar, baseado em relato de um caso, o subtipo do tumor com as manifestações clínicas, além de descrever a evolução clínica e resultados de exames auditivos e de imagem em seguimento de longo prazo.

Em nossa revisão, a principal manifestação clínica encontrada nos pacientes com schwannoma intralabiríntico, independentemente do subtipo, é perda auditiva, normalmente neurossensorial, progressiva, com baixa discriminação de fala.12 Estima‐se que 15% a 32% dos pacientes apresentem perda auditiva súbita como manifestação inicial do quadro, são raros os casos com perda auditiva flutuante.13,14 A segunda queixa mais frequente é vertigem, que pode ocorrer secundariamente a todos os subtipos de schwannoma intravestibular.

Apesar de ainda não haver consenso sobre a fisiopatologia da perda auditiva nesses casos, acredita‐se que, no schwannoma intracoclear, a perda seja consequência a compressão ou destruição direta do nervo coclear. Nos tumores localizados no interior do vestíbulo, a perda auditiva pode ser explicada pela hidropsia hidrolinfática, que provocaria compressão das estruturas adjacentes.15 Em ambos os casos, o tumor pode causar, também, mudanças metabólicas nos líquidos da orelha interna e levar como consequência à perda da audição e ao desequilíbrio.16

Apesar de não ser exclusiva, a queixa de vertigem ocorre mais frequentemente no schwannoma intravestibular.17,18 Sobre o tratamento dos schwannomas intralabirínticos, na maioria dos casos relatados nos estudos selecionados optou‐se por seguimento clínico e radiológico seriado, considerando a baixa porcentagem (15%) de pacientes que apresentam crescimento tumoral dentro de período de evolução de cinco anos.18 Em algumas situações, pode‐se optar por excisão cirúrgica da lesão, as principais indicações são (1) há evidência de crescimento tumoral que leva a envolvimento do ângulo ponto cerebelar, meato acústico interno ou orelha média; (2) perda total da audição; (3) sintomas vestibulares que não melhoram com tratamento clínico; ou (4) dúvida diagnóstica.1 Uma revisão publicada por Van Abel et al.2 que incluiu 14 pacientes com diagnóstico de schwannoma labiríntico submetidos a seguimento clínico estimou que somente 3% necessitaram de tratamento cirúrgico. Considerando o alto risco de complicações da cirurgia para remoção do schwannoma intralabiríntico (inclusive surdez, tontura e paralisia facial) e o baixo potencial de crescimento desses tumores, os estudos sugerem que o seguimento clínico é a melhor forma de seguimento, reserva‐se a cirurgia para situações específicas ou sinais de intratabilidade dos sintomas.

Conclusão

A principal manifestação clínica dos pacientes com schwannoma intralabiríntico é a perda auditiva, presente em aproximadamente 100% dos casos relatados.19,20 O tipo de perda auditiva mais frequente é neurossensorial, caracteristicamente progressiva; perdas súbitas ou flutuantes são menos frequentes. Apesar de haver quase 600 casos de schwannoma intralabiríntico relatados na literatura, descrições detalhadas da evolução clínica dos pacientes e as devidas correlações radiológicas são escassas. Os mecanismos embriológicos e fisiopatológicos envolvidos na gênese do tumor e sua consequente sequela auditiva ainda não estão completamente elucidados.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
[1]
K.J. Doyle, D.E. Brackmann
Intralabyrinthine schwannomas
Otolaryngol Head Neck Surg, 110 (1994), pp. 517-523 http://dx.doi.org/10.1177/019459989411000608
[2]
K.M. Van Abel, M.L. Carlson, M.J. Link, B.A. Ne, C.W. Beatty, C.M. Lohse
Primary inner ear schwannomas: a case series and systematic review of the literature
Laryngoscope, 123 (2013), pp. 1957-1966 http://dx.doi.org/10.1002/lary.23928
[3]
J. Ebmeyer, J. Lautermann, L.U. Scholtz, H. Sudhoff
Intralabyrinthine schwannomas
[4]
S. Knipping, A. Fabricius, S. Kösling, M. Bloching
Intracochlear schwannoma as a cause of a deafness: a case report
[5]
M.S. Karlan, M. Basek, G.B. Potter
Intracochlear neurilemoma
Arch Otolaryngol, 96 (1972), pp. 573-575
[6]
O. Mayer
Ein fall von multiplen Tumoren in den Endausbreitungen des Akustikas
Z Ohrenheilkd, (1917), pp. 95-113
[7]
M.F. Mafee, C.S. Lachenauer, A. Kumar, P.M. Arnold, R.A. Buckingham, G.E. Valvassori
CT and MR imaging of intralabyrinthine schwannoma: report of two cases and review of the literature
[8]
L.E. Jackson, K.K. Hoffmann, S.I. Rosenberg
Intralabyrinthine schwannoma: subtle differentiating symptomatology
Otolaryngology Head Neck, 129 (2003), pp. 439-440
[9]
F. Gordts, P. Van Der Veken, V. Topsakal
A pilot with an intravestibular schwannoma: to fly or not to fly?
Otol Neurotol, 32 (2011), pp. 326-329 http://dx.doi.org/10.1097/MAO.0b013e3182040b03
[10]
A. Tieleman, J.W. Casselman, T. Somers
Imaging of intralabyrinthine schwannomas: a retrospective study of 52 cases with emphasis on lesion growth
Am J Neuroradiol, 29 (2008), pp. 898-905 http://dx.doi.org/10.3174/ajnr.A1026
[11]
L.J. O’Keeffe, A.E. Camilleri, J.E. Gillespie, A. Cairns, R.T. Ramsden
Primary tumours of the vestibule and inner ear
J Laryngol Otol, 111 (1997), pp. 709-714
[12]
B.A. Neff, T.O. Willcox Jr., R.T. Sataloff
Intralabyrinthine schwannomas
Otol Neurotol, 24 (2003), pp. 299-307
[13]
R.J. Kennedy, C. Shelton, K.L. Salzman
Intralabyrinthine schwannomas: diagnosis, management, and a new classification system
Otol Neurotol, 25 (2004), pp. 160-167
[14]
K.M. Van Abel, M.L. Carlson, M.J. Link
Primary inner ear schwannomas: a case series and systematic review of the literature
Laryngoscope, 123 (2013), pp. 1957-1966 http://dx.doi.org/10.1002/lary.23928
[15]
S. Rosahl
Acoustic neuroma: treatment or observation?
Dtsch Arztebl Int, 106 (2009), pp. 505-506 http://dx.doi.org/10.3238/arztebl.2009.0505
[16]
Z.Y. Jiang, Kutz JWJr, P.S. Roland, B. Isaacson
Intracochlear schwannomas confined to the otic capsule
Otol Neurotol, 32 (2011), pp. 1175-1179 http://dx.doi.org/10.1097/MAO.0b013e31822a20ea
[17]
A.B. Grayeli, C. Fond, M. Kalamarides
Diagnosis and management of intracochlear schwannomas
Otol Neurotol, 28 (2007), pp. 951-957 http://dx.doi.org/10.1097/MAO.0b013e3181514485
[18]
K.L. Saltzman, A.M. Childs, H.C. Davidson, R.J. Kennedy, C. Shelton, H.R. Harnsberger
Intralabyrinthine schwannomas: imaging diagnosis and classification
AJNR Am J Neuroradiol, 33 (2012), pp. 104-109 http://dx.doi.org/10.3174/ajnr.A2712
[19]
D.T. Weed, M.W. Teague, R. Stewart
Intralabyrinthine schwannoma: a case report
Otolaryngol Head Neck, 111 (1994), pp. 137-142
[20]
H.L. DeLozier, R.R. Gacek, S.T. Dana
Intralabyrinthine schwannoma
Ann Otol Rhinol Laryngol, 88 (1979), pp. 187-191 http://dx.doi.org/10.1177/000348947908800207

Como citar este artigo: Elias TG, Perez Neto A, Zica AT, Antunes ML, Penido NO. Different clinical presentation of intralabyrinthine schwannomas – a systematic review. Braz J Otorhinolaryngol. 2018. https://doi.org/10.1016/j.bjorl.2018.05.007

A revisão por pares é da responsabilidade da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico‐Facial.

Copyright © 2018. Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial
Idiomas
Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

Receba a nossa Newsletter

Opções de artigo
Ferramentas
en pt
Cookies policy Política de cookies
To improve our services and products, we use "cookies" (own or third parties authorized) to show advertising related to client preferences through the analyses of navigation customer behavior. Continuing navigation will be considered as acceptance of this use. You can change the settings or obtain more information by clicking here. Utilizamos cookies próprios e de terceiros para melhorar nossos serviços e mostrar publicidade relacionada às suas preferências, analisando seus hábitos de navegação. Se continuar a navegar, consideramos que aceita o seu uso. Você pode alterar a configuração ou obter mais informações aqui.